terça-feira, 20 de setembro de 2011

O homem que não era isto,nem aquilo

Lia passeava com suas palavras quando, de repente, algo caiu bem em cima da  sua cabeça, vindo não sei de onde.
Eram notas musicais. Mas não entraram pelo ouvido como a música ou o canto dos pássaros... Elas pesaram em seus ombros a ponto de envergarem o seu pescoço.



Sim – eram mesmo pássaros. Não havia dúvida.
Mas era um canto amargo, triste e cinza como uma prisão.
- Prisão?
Lia olhou para cima e descobriu – Eram pássaros presos em gaiolas na varanda de um apartamento!




 

Decidida, subiu correndo a escada e bateu na porta.
- Toc, toc, toc...
- Toctoctoc – mais apressada
- TOCTOCTOC – apressada e nervosa.
- TOCTOCTOC – apressada, nervosa E BATENDO FORTE.

Atendeu um senhor. Não era alto nem baixo. Não era feio nem bonito,

Nem gordo nem magro. Era como qualquer um.
- Diga menina, o que deseja?

 - O senhor tem pássaros nas gaiolas?

- Ah! Os pássaros. Você os ouviu, não é?
É um lindo canto. Gosta? Entre, pode escutar de perto.

- Mas eu não quero escutar de perto – quero soltá-los!


- Soltar os meus pássaros? Enlouqueceu?

 - Não são seus – são da Mãe Natureza!

 - São meus sim. Eu os alimento, cuido deles. Não vão saber viver fora da minha gaiola.

- O senhor não aprendeu a viver fora da barriga da sua mãe?

Mas que menina impertinente!
- É diferente, menina. Eu Gosto deles!

- Sua mãe também gostava do senhor!

Lia pensou rápido: o homem não assustava.

Não tinha cara nem boa nem má... Quem sabe ela ainda poderia plantar uma palavrinha boa naquele coração? Quem ainda não é nem mau nem bom, pode ser qualquer coisa – pode até ficar muito bom!

- O senhor também gosta da sua esposa? Disparou de supetão.

- Sim! Eu a amo muito! Respondeu o homem sem atinar com aquela pergunta esquisita, feita assim à queima roupa, sem ter nem pra quê!

- E o senhor também a prende em uma gaiola? Retrucou Lia.


Não era feio nem bonito, nem bom nem mal, mas não era tolo. Entendeu imediatamente!
Amor não combina com prisão.

O homem que não era nem isto nem aquilo juntou todas as suas gaiolas, tomou Lia pela mão e juntos foram procurar um parque – nos dias de hoje, coisa rara na cidade.  Mas encontraram.

Juntos abriram as portinhas das gaiolas e ficaram observando.

O homem estava com o seu coração apertadinho, já inchadinho de saudade antecipada, mas resistiu.


Primeiro houve um bater de asas desengonçado.
Depois um vôo curto.
Outro mais ousado, e outro e outro mais.
E houve um cantar sem fim.
E o homem que não era nem velho, nem menino, entendeu a LIBERDADE.










Um comentário:

  1. Que lindo texto, Fátima! Trouxe-me uma doce lembrança: quando meu filho era bem pequeno, mal falava direito, a janela de seu quarto dava para a casa do vizinho e no alto ele via um passarinho na gaiola e ele dizia, ‘voa passarinho, voa’...
    Abraços.

    “Para o legítimo sonhador não há sonho frustrado, mas sim sonho em curso” (Jefhcardoso)

    Convido para que leia e comente “ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ” no http://jefhcardoso.blogspot.com/

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